Quando eu desaprendi a gostar de mim - Anorexia


Eu literalmente desaprendi o que é ter um corpo "normal" dentro desses últimos quatro anos. Eu acho que a anorexia chega e até pode ir embora, mas algo sempre fica na nossa cabeça. E a minha perdeu a noção de bastante coisa. Aliás, o certo na minha cabeça ainda é passar fome.

Até quando eu como demais, a primeira coisa que sempre passa pela minha cabeça é colocar para forma, mesmo que seja forçado e em seguida ainda tomar mais laxantes do que vocês podem imaginar. O que parece uma "brincadeira", não é. Eu sei que muitas pessoas olham isso de forma estranha, mas a vontade de ver os próprios ossos é maior do que tudo.

Acho que perder o contato com o próprio corpo é uma das piores coisas que podem acontecer, sua saúde, seu ser. Não interessa se for manequim 34 ou 38. Nunca está certo pra mim e eu só quero chorar. Não porque eu não gosto de mim, mas porque eu não me entendo.

Eu não sou uma pessoa alta e sempre briguei com a balança. Hipotireoidismo. Enfim. Eu decidi encarar meu passado sozinha com o meu instagram. Já fazia um ano que eu tinha depressão.

Eis minhas mudanças até hoje. Começando lá de trás. Eu sinceramente não sei se alguém está interessado em saber sobre isso, mas escrever sobre isso tudo me faz ficar mais confusa ainda.


Eu estava severamente doente, pesando por volta de 45kg ou menos, sendo que meu peso ideal é 56kg, sem comer, o que eu comia eu colocava para fora, não sabia receber elogios e ainda tentava me destacar e tentar chamar atenção de alguma forma. Acho que eu estava esperando alguém perceber que eu estava doente e me salvar. Talvez as coisas tenham começado a melhorar quando eu desisti da faculdade de biomedicina e comecei a me exercitar no circuito da praia. O que eu achei um absurdo, porque eu cheguei aos 50kg e não sabia lidar com o meu corpo. E cada pessoa que me apontava algo, eu achava que estava mais errado ainda. Momentos que me faziam rir eram completamente inexistentes, aconteciam, mas quase que nunca. Talvez eu tivesse começado a melhorar, até que meu avô veio a falecer. O mundo perdeu toda a cor, e eu também. Eu comecei a comer demais, por causa da ansiedade. E eu ainda acredito que minha medicação por algum motivo está errada, porque essa sensação ruim ainda não foi embora. Talvez o espelho tenha trincado por algum motivo, mas não sei. No final de todos os dias, era o mesmo vazio. Com o circuito, eu realmente voltei a ter um "corpo". Que não me agrada nenhum pouco. Acho que uma das decisões mais complicadas foi me livrar da minha imagem antiga e começar uma nova. Muita gente não entendeu e não aceitou. Mas eu tive meus motivos, e talvez por causa disso, hoje, mesmo ainda não estando satisfeita, eu me sinto mais livre. Eu, sendo singular, com meu cabelo preto, meu peso ideal e muita gente reclamando que eu engordei. Pois é, eu engordei. Infelizmente talvez eu nunca seja feliz com o meu corpo, eu espero que isso um dia mude, mas até lá, o máximo que eu posso fazer, é bater palmas para todas que se orgulham do que são. Porque mesmo mais aliviada e livre, eu passei muitas madrugadas no hospital tomando soro, dei muita preocupação para os meus pais, vi minha glicose e minha pressão despencarem, não conseguia segurar nada no meu estômago e só sentia meu rosto molhado de tantas lágrimas por absolutamente nada. Eu fui refém do mundo. Aliás, talvez alguma hora da vida todos sejam. Mas não se sentir bem com o que você é, talvez seja uma das piores dores que eu já tenha enfrentado.

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