Me encontre na madrugada.


Esses dias eu estou repleta de pensamentos ruins. Tipo aqueles biscoitos com recheio ruim. Eu sei que tudo muda, nada fica do jeito que está para sempre e todo esse blábláblá. Mas essa dor, essa dor aqui dentro, eu gostaria que ela não mudasse, sinceramente.

Mas o que você está falando?

Parece ser engraçado como algumas pessoas doentes não gostam de admitir que a condição delas mudou. Digo, pessoas com doenças mentais.

A gente se acostuma com a dor. A gente aprende a tolerar e conviver com ela. E quando ela muda, primeiro, nós não sabemos se foi para bom ou ruim. Segundo, o cansaço mental de ter que se acostumar com uma situação nova é péssimo.

Ser doente cansa, ter uma doença mental cansa demais. Pelo menos, seja quem estiver olhando por mim, parece saber equilibrar a situação. Porque ultimamente nem tempo direito para faculdade eu tenho. Muito obrigada, trabalho! (hearts from heart)

Eu só queria me sentir bem, pelo menos um pouquinho, aqui dentro. Não aguento mais ficar vendo provocações alheias. Ainda bem que dessa vez não é nem armadura que eu estou usando, é minha carne mesmo. Só que ela já está tão danificada que eu nem sinto mais nada nesse quesito, acho que já me acostumei com babaquice. 

É só mais uma madrugada aonde eu me encontro e me perco ao mesmo tempo. Fazer das minhas desgraças um hobby está quase ficando legal.

Como é ter uma amiga com depressão?

- Eu vi ela olhar para o chão, não sabia se havia algo 
interessante nele ou se ela estava apenas tentando esconder algo no seu olhar.


Ter uma amizade com alguém com depressão. Conosco. É extremamente diferente de qualquer outra amizade. De verdade. Eu posso dizer algumas diferenças. Eu vou ser sincera. Aliás, por que eu falaria alguma mentira? Enfim.

Com minhas amizades, eu sou a Ana que quer deixar todo mundo feliz. Acho que isso é uma característica de (quase) todo mundo com depressão, você sorri mais que as outras pessoas, você tenta animar as outras pessoas e fazer da tempestade delas um lugar para contar histórias de amor de baixo de um guarda-chuva imaginário. 

- Os problemas dos outros viram histórias de amor aos nossos olhos.


Somos essas mentiras ambulantes. A gente se perde na gente mesmo umas 50 vezes por dia, sem brincadeira nenhuma. A gente diz que está tudo bem, a gente garante com fervor. Isso só volta no final do dia, no travesseiro, quando a gente repara que bosta que somos por mentir tanto. Por não conseguir nem ao menos ser verdadeiros com quem amamos. Mas não é por maldade. A gente só aprendeu que esconder o que a gente sente é melhor.

E nós amamos. De um jeito diferente. Mas a gente ama. As vezes a gente realmente luta mais com tudo. É complicado sair da cama, responder uma mensagem de texto ou tirar o olhar do chão. Mas a gente ainda ama, e ama muito.

Ser amigo de alguém com depressão é ter uma borboleta presa dentro de um pote. Ela é bonita, mas não sabe que é, sabe voar, mas não consegue, precisa de ar, mas não tem o suficiente. É meio que segurar algo que está esperando pela morte. Mas ainda assim quer tentar viver.

Nós somos complicados. Somos não complicados. Aliás, depende. Se você quer uma amizade verdadeira, você pode ter certeza de que quando somos amigos, nós somos. A gente não brinca com o sentimento dos outros, porque já brincaram o suficiente com os nossos.

Ser amigo de alguém com depressão é ter que ser no mínimo um pouco compreensivo. A hora passa diferente para a gente. Os dias. O sol nasce e se põe diferente. Mas a gente ainda sabe admirar tudo isso.

Pode dar um pouco de medo de ser amigo de alguém assim. Mas eu prometo que a gente não pede muito. Para falar a verdade, na maioria das vezes a gente não pede nada. Talvez seja por isso que muitos de nós não tem amizades.

A gente espera as pessoas notarem. A gente não sabe pedir por nada. Nem por um pingo de atenção. E a gente muitas vezes acredita que a amizade uma hora vai acabar. É complicado. Eu tenho que admitir. Mas eu não sei que tipo de relacionamento não é complicado nesse mundo.

- Talvez no final do dia ser amigo de alguém com depressão seja o mesmo que ser amigo de alguém que não tem depressão. Apenas saber compreender e respeitar. E mais que tudo: amar.