Medo do escuro.


Viver me dá medo.

Mesmo na luz do dia, meus passos são dados como se eu estivesse no escuro. É só assim comigo? Ou será que o improvável e o inesperado que é o próximo momento também assusta outras pessoas?

Além de estar no escuro, ultimamente eu estava andando sozinha. Caindo e levantando sozinha.

Eu tive medo de chorar ultimamente. Eu fingia estar forte. Mas era medo de não ser ouvida. A tempestade foi grande e eu acabei não chorando, mas gritando com todas as forças. Não é que me levantaram do chão? E ainda sorriram, me dizendo: Está tudo bem. A gente ama você mesmo assim.

Talvez eu realmente ainda vá viver com muito medo. No escuro. No meu escuro. Com uma família que pensa que eu sou um monstro, com um pai que não sinta muita coisa por mim, com o relógio errado e a esperança no zero.

Mas eu vou continuar levantando toda vez que eu cair. Minha depressão ainda habita meu corpo, mas ela não sou eu. Minha ansiedade ainda me atrapalha de viver, mas ela não supera minha força de vontade. Meus inúmeros ataques de pânico podem me deixar sem ar por vários minutos, mas toda vez que eu recupero o fôlego, eu penso comigo mesma: "Ah, é verdade. Se eu consigo sentir essa dor, significa que eu estou viva. E se eu posso sentir esse tanto de dor, talvez eu possa um dia sentir esse tanto de alegria!"


A vida nos dá a oportunidade de ligar a luz. De respirar fundo. De seguir em frente. Talvez eu ainda seja nova demais para me lembrar disso todos os dias, mas quando eu consigo olhar no espelho e pensar assim, todos os tombos viram apenas momentos que eu precisava de um tempo para descansar que eu não tinha me cedido por querer ser forte demais.

Minhas características são fortes demais. Assim como a vida. A gente meio que não combina, mas estamos dando o nosso melhor. A raiva de ontem que me fazia querer ir embora para sempre, hoje me motiva a continuar, ir em frente.

Eu tenho muito medo de viver. Talvez eu não supere isso tão cedo, mas eu não vou parar por isso. Eu já tenho coisas ruins demais. Se eu me privar pelo medo, talvez eu perca algo bom. E eu não vou deixar isso acontecer.

Queria querer.


Queria pintar um retrato seu, mas meus dedos trêmulos não deixaram. Queria visitar aquele lugar especial, mas o relógio teve mais pressa e eu perdi a viagem. Queria seguir pegadas na areia, mas durante o caminho elas foram apagas pelas ondas do mar. Queria ouvir os passarinhos cantando no céu azul, mas a chuva espantou todos. Queria ser outra pessoa, mas acordei e era a mesma no espelho.

Fiquei querendo o querer e não consegui.

Coloquei os dedos trêmulos dentro dos bolsos da calça, talvez fosse melhor ter só sua lembrança. Joguei o relógio fora, ele só servia para ditar minha vida, não queria mais. Esqueci as pegadas e decidi fazer as minhas próprias. Eu também podia, não podia? Eu não ouvi os passarinhos, mas o barulho da chuva acalmou meu coração solto e desesperado. E o espelho? Eu apenas tive que entender que ia ser assim. Eu era assim. Ser outro alguém não ia adiantar no dia de amanhã.

Suspirei.

Só um minuto, disseram.


Mas o que era mais um minuto dentro dessa agonia intensa que não me deixa pensar? 60 segundos. Eu continuava esperando pelo nascer do sol todos os dias na minha janela, esperando meu dia acabar, enquanto os outros começavam. 50 Segundos. Quantos erros eu tinha feito até conseguir acertar o alvo certo? E qual era mesmo o alvo? Nem isso mesmo eu conseguia me lembrar mais, já fazia muito tempo. 40 segundos. Tomar decisões baseadas em emoções são quase que como tomar não baseadas, ou você é visto como muito sensível ou indiferente. Qual a diferença? 30 segundos. O caroço no meu pescoço continuava crescendo e as lágrimas rolando, cada vez mais. Não fazia parte de mim querer ser vista daquela forma. 20 segundos. Meu coração ainda bate no meu peito todos os dias atrás de uma alegria, mesmo que infundada, mesmo que eu não consiga encontrar, ele ainda bate, procurando sem fim por algo para se apegar. 10 segundos. O final, aquele momento que a gente encerra uma discussão, cerrando os olhos, sentindo o amargo na boca e o arrependimento de ter começado qualquer coisa sem razão. Mais nenhum segundo. 

Acontece que o tempo é uma coisa muito mesquinha, ele não espera por você e nem por ninguém, seus sentimentos são misturados de formas absurdas em apenas um minuto, assim como os seus pensamentos. O cansaço não faz o tempo diminuir ou parar. O amor não faz o tempo aumentar. A tristeza não faz o tempo ser mais rápido. Nada muda o tempo. O tempo é imutável. Eu também gostaria de ser imutável, mas todos os dias que eu acordo, eu encontro uma pessoa diferente me esperando.

É isso que um minuto significa?

Quando eu desaprendi a gostar de mim - Anorexia


Eu literalmente desaprendi o que é ter um corpo "normal" dentro desses últimos quatro anos. Eu acho que a anorexia chega e até pode ir embora, mas algo sempre fica na nossa cabeça. E a minha perdeu a noção de bastante coisa. Aliás, o certo na minha cabeça ainda é passar fome.

Até quando eu como demais, a primeira coisa que sempre passa pela minha cabeça é colocar para forma, mesmo que seja forçado e em seguida ainda tomar mais laxantes do que vocês podem imaginar. O que parece uma "brincadeira", não é. Eu sei que muitas pessoas olham isso de forma estranha, mas a vontade de ver os próprios ossos é maior do que tudo.

Acho que perder o contato com o próprio corpo é uma das piores coisas que podem acontecer, sua saúde, seu ser. Não interessa se for manequim 34 ou 38. Nunca está certo pra mim e eu só quero chorar. Não porque eu não gosto de mim, mas porque eu não me entendo.

Eu não sou uma pessoa alta e sempre briguei com a balança. Hipotireoidismo. Enfim. Eu decidi encarar meu passado sozinha com o meu instagram. Já fazia um ano que eu tinha depressão.

Eis minhas mudanças até hoje. Começando lá de trás. Eu sinceramente não sei se alguém está interessado em saber sobre isso, mas escrever sobre isso tudo me faz ficar mais confusa ainda.


Eu estava severamente doente, pesando por volta de 45kg ou menos, sendo que meu peso ideal é 56kg, sem comer, o que eu comia eu colocava para fora, não sabia receber elogios e ainda tentava me destacar e tentar chamar atenção de alguma forma. Acho que eu estava esperando alguém perceber que eu estava doente e me salvar. Talvez as coisas tenham começado a melhorar quando eu desisti da faculdade de biomedicina e comecei a me exercitar no circuito da praia. O que eu achei um absurdo, porque eu cheguei aos 50kg e não sabia lidar com o meu corpo. E cada pessoa que me apontava algo, eu achava que estava mais errado ainda. Momentos que me faziam rir eram completamente inexistentes, aconteciam, mas quase que nunca. Talvez eu tivesse começado a melhorar, até que meu avô veio a falecer. O mundo perdeu toda a cor, e eu também. Eu comecei a comer demais, por causa da ansiedade. E eu ainda acredito que minha medicação por algum motivo está errada, porque essa sensação ruim ainda não foi embora. Talvez o espelho tenha trincado por algum motivo, mas não sei. No final de todos os dias, era o mesmo vazio. Com o circuito, eu realmente voltei a ter um "corpo". Que não me agrada nenhum pouco. Acho que uma das decisões mais complicadas foi me livrar da minha imagem antiga e começar uma nova. Muita gente não entendeu e não aceitou. Mas eu tive meus motivos, e talvez por causa disso, hoje, mesmo ainda não estando satisfeita, eu me sinto mais livre. Eu, sendo singular, com meu cabelo preto, meu peso ideal e muita gente reclamando que eu engordei. Pois é, eu engordei. Infelizmente talvez eu nunca seja feliz com o meu corpo, eu espero que isso um dia mude, mas até lá, o máximo que eu posso fazer, é bater palmas para todas que se orgulham do que são. Porque mesmo mais aliviada e livre, eu passei muitas madrugadas no hospital tomando soro, dei muita preocupação para os meus pais, vi minha glicose e minha pressão despencarem, não conseguia segurar nada no meu estômago e só sentia meu rosto molhado de tantas lágrimas por absolutamente nada. Eu fui refém do mundo. Aliás, talvez alguma hora da vida todos sejam. Mas não se sentir bem com o que você é, talvez seja uma das piores dores que eu já tenha enfrentado.