Eu acho que nunca parei para falar direito como a depressão revirou algumas coisas na minha vida, então eu resolvi vir aqui como primeiro post de 2014 contar pra vocês como a minha doença conseguiu revirar tanta coisa no meu cotidiano.
- Estou triste
- Eu também.
Eu parei pra pensar em algumas situações na minha vida onde eu mais fui afetada, e acho que muita gente vai se identificar, tanto com relação a depressão e ansiedade.
#Na Escola
Eu tive um péssimo ensino médio, já que foi no meio desse período que já é turbulento que eu comecei a sentir que minha garganta queria fechar. Eu olhava para os lados e via todos felizes, rindo, com seus respectivos grupos e eu permaneci sozinha por um bom tempo, isso quando eu ia a aula, porque muitas vezes eu acordava, ou não dormia, e tinha crises absurdas de pânico. Parecia que tudo na minha vida estava incerto e eu estava tentando andar em espinhos. Qualquer ideia que me tirasse da minha zona de conforto, era game over, eu não queria mais nada.
Fui aconselhada algumas vezes pela psicóloga da escola, o que não mudou muito, e é assustador você descobrir que está doente, principalmente aceitar o fato. Tive momentos de ligar pra minha mãe em desespero. Sabe aquele barulho de uma panela de pressão? Aquele zumbido? Parece que eu vivia com ele 24h por dia na minha cabeça.
#Na Faculdade
Tive um período de férias até decidir pra qual faculdade ir, muitos de vocês já sabem que eu desisti da minha primeira. Mas alguns não sabem quais foram os motivos.
Muita gente não sabia lidar comigo, e nem eu mesma, minha faculdade ficava longe de casa, (muito longe). Eu acabei tomando trauma de ônibus, e mais uma vez, eu me pegava olhando para aquelas pessoas, todas com futuros promissores que um dia eu também já tinha tido mas não tinha mais segurança de nada.
Na realidade, na faculdade foi onde a minha insegurança cresceu. Sobre tudo, era como se a vida escolar tivesse sido uma grande mentira para mim; não tinha me ensinado nada. Larguei um curso que eu poderia ter ido até o fim por causa dos meus problemas, decidi fazer um curso EaD. Não me arrependo, eu tenho minhas limitações, elas me fazem chorar, misturam meus sonhos, estragam meus dias mas é a vida que eu posso levar.
#Na Amizade
Eu não tenho amigos realmente, se eu tiver dois é muita coisa, mas não os vejo faz tempo. Sou uma pessoa extremamente: "quero ficar sozinha". É quase que impossível me fazer gostar de você, e o pior de tudo é que se eu gosto, normalmente você vai embora.
Nunca pedi muito, mas acho que o maior trauma com relação a amizade foi com uma das minhas melhores amigas que passou o ensino médio inteiro comigo, e quando eu adoeci, ela se afastou de mim. Quando perguntei o motivo, eu ouvi uma coisa que ainda fica muito gravada na minha cabeça: "Você está com algo ruim em você".
Não, eu não estava possuída, eu estava doente.
DEPRESSÃO é uma doença.
TRANSTORNO DE ANSIEDADE é uma doença. Isso enlouqueceu minha cabeça e eu só consegui contar essa história pra minha mãe anos depois, porque na época eu já estava tão perdida, que se alguém me falasse algo, eu realmente acreditava. Sem falar nos pensamentos que me atormentam sem minha permissão.
#No trabalho
Quando você tem alguma doença assim, você acaba se doando mais do que devia para tudo e todos, se fazendo de mil quando você pode ser só uma. Por quê? Porque você quer ouvir um reconhecimento, você quer que alguém veja que você é bom em algo, e principalmente pra ninguém reparar o quão fodida você está por dentro.
Na época, eu subi três cargos em duas semanas, por causa disso eu acabei sendo uma espécie de pessoa que as outras não gostavam. Dentro do lugar inteiro, três pessoas me tratavam bem, o resto falava mal de mim pelas costas sem nem saber o que estava acontecendo comigo. Foi uma guerra que eu entrei e já estava perdida. Só que eu não sabia, eu tive que pagar pra ver.
Mas eu não mudei, eu continuo sendo a Ana que faz mil coisas ao mesmo tempo porque eu sei dar conta. No momento que eu digo que não consigo fazer, é porque eu não consigo. Eu não vou deixar de ser útil por causa dos outros, pena que eu aprendi a manter a calma um pouco tarde demais.
#Na Família
Eu passei de neta favorita pra um problema, minhas brigas com meu pai pioravam e eu me sentia a pior filha com relação a minha mãe. Na verdade, eu não sei se foi uma amnésia não grata que se instalou na minha cabeça, mas eu ainda martelo muito que minha mãe demorou pra acordar. "Ei, sua filha tá doente!". Se na minha cabeça era difícil, imagina na cabeça dela, em ver uma filha se debatendo, gritando, chegando a desejar até a morte.
E então eu conheci a morte, eu perdi uma das pessoas mais especiais da minha vida. Aliás, nessa ladeira muita coisa foi embora, porque como dizer, é nas horas de dificuldade que nós descobrimos quem são realmente as pessoas. Infelizmente eu tive que descobrir assim. Meu avô foi embora e ironicamente a única coisa que eu tenho certeza que ele viu antes de ir foi a estúpida da neta dele mostrando como o nome dela ficava escrito em coreano.
Perdi muita fé na minha família, mas em compensação, construí um relacionamento com a minha mãe que é único.
#Em Casa
No começo eu não conseguia ficar sozinha em casa, qualquer coisa me atormentava, eu simplesmente perdia a cabeça, na verdade eu não lembro muita coisa desses momentos. Eu sei que eu batia muito na parede com as palmas da minha mão, gritava, chorava, tentava respirar e o ar não vinha. Ficar sozinha era o fim do mundo.
Depois de um ano do meu desespero, a mesa virou, eu consegui a lidar melhor com o ficar sozinha, comecei a assistir K-Dramas, comecei a mergulhar em coisas que eu sabia que iam me segurar até simplesmente dormir pesado no meio do nada. Essa fase está comigo até hoje, eu simplesmente fecho os olhos, coloco os fones de ouvido com qualquer música e durmo. É claro que eu tenho as minhas medicações, mas dormir se tornou um refugio pra qualquer hora.
#No Amor
Estupidez falar disso, mas eu gostei de uma pessoa e de ninguém mais. Aliás, na verdade eu nem sei se gostei da pessoa ou se foi invenção da minha cabeça.
Eu sou do tipo que fantasia estar apaixonada pela paixão de gostar de uma pessoa. Idealizo demais, quero muito demais, e mesmo que eu consiga, eu não vejo muita graça. Eu simplesmente não consigo. Eu não acho que o amor vá ajeitar os meus problemas e que eu preciso de uma pessoa do meu lado pra viver minha vida.
Se eu ficar sozinha, pelo menos terei vários animais dentro de casa. Sinceramente, eu não me importo muito com isso, não mais.
#Em Lugares Cheios
-Olhe todas essas pessoas.
-É, queria ter uma arma.
Ônibus, praça de alimentação, praia entupida, qualquer coisa assim me fazia ficar tonta, trazia a agoraphobia. Andar no mercado com a minha mãe só se fosse segurando o ombro dela, porque eu realmente achava que eu ia me espatifar no chão qualquer momento que fosse.
Eu não sou uma pessoa que gosta de sair de casa, mas eu tive umas provações grandes pra melhorar e que eu tive que engolir os meus problemas e ser forte, pensando comigo mesma: "Você vai deixar de viver?"
Então eu decidi viajar, decidi pegar ônibus, decidi tentar andar no meio de pessoas, decidi ir em direção a tudo que me assustava. E é engraçado, a agoraphobia foi uma das coisas que foi embora por mérito meu.
#Na Alimentação
Eu aprendi o que é sentir fome final de 2013. Comida pra mim ainda é uma coisa nojenta, e eu nunca entendi o porquê deu ter colocado isso na minha cabeça, mas eu coloquei. E o meu sistema nervoso puxou do meu pai o problema de: você está nervoso? está ansioso? tem algo te preocupando? Vomita!
Cheguei a ter peso pena, nada ficava no meu estomago, me olhava no espelho e ainda achava que tinha que emagrecer. Eu ainda uso roupas da parte infantil das lojas, mas o meu manequim não é mais 34, hoje eu consigo manter a comida dentro do estômago.
#De Madrugada
Acho que a pior parte da minha vida por um tempo foi a madrugada. Ela já me fez querer suicídio, já me fez acordar meus pais em desespero, já me fez parar no hospital diversas vezes.
Hoje por mais que eu ainda chore, por mais que eu tenha pensamentos ruins e muitos flashbacks de coisas que já estão enterradas, a madrugada se tornou uma amiga.
Eu consigo ouvir o silêncio dentro de casa, consigo sentir que meus pais estão respirando, que meus cachorros estão respirando e eu posso fazer minhas coisas em paz. Sem falar que, eu nunca fui fã de sol.
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Sei lá, eu só queria que as pessoas entendessem que isso é uma doença. No primeiro dia de 2014 eu tive que ouvir de muita gente que depressão é uma coisa chamada "piti" e "frescura". Ah, se eles soubessem...
- Eu queria agradecer as pessoas que vieram falar comigo sobre o blog. Fico feliz de alguma forma confortar alguém.